“Quanto mais batem, mais eu cresço”, afirma Pabllo Vittar - Baixada Viva Notícias

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“Quanto mais batem, mais eu cresço”, afirma Pabllo Vittar

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Desde 2015, quando lançou seu primeiro clipe de sucesso, Pabllo Vittar não passava tanto tempo em casa. 

Como boa parte do planeta, a cantora interrompeu sua rotina – no caso dela com muitas viagens – e passa a pandemia com a família em Uberlândia (MG). 




“O lado bom é ficar com minha mamãe, minhas irmãs. Tenho que ver algo de positivo nisso tudo”. 




Neste ano, pela pandemia, teve apresentações desmarcadas em dois dos maiores festivais do mundo, o americano Coachella e o espanhol Primavera Sound. Na outra mão, emplacou uma campanha internacional para a Calvin Klein, fotografada em Nova York.

O crescente sucesso (também fora do Brasil) de Pabllo, que bate recordes de visualizações nas plataformas online, não é unânime. 

A artista é um dos maiores alvos de fake news de grupos de direita na internet. Em um dos boatos viralizados, uma montagem com seu rosto aparecia em notas de R$ 50, e informava que um projeto da Casa da Moeda já havia sido encaminhado à Câmara de Vereadores. 




“Quando a pessoa é muito conservadora e ela acredita nessa postura, meu amor, ela não pode ver ninguém com autenticidade, sendo diferente”, diz à repórter Marcela Paes.




Na contramão de colegas que faturam com shows drive-in, a cantora não pretende se apresentar no formato por considerá-lo excludente, mas nem por isso parou de produzir. 

Faz lives para manter o contato com fãs, compõe e em julho lançou o videoclipe da música Rajadão, que já tem 5,7 milhões de acessos. “Minha cabeça é um formigueiro, se eu não estou fazendo alguma coisa, eu fico doida”. Leia abaixo trechos da entrevista.

Você sempre fez muitos shows. Como está lidando com a falta de contato com o público?

Eu me sinto sem energia porque sou uma pessoa muito física, amo estar no palco, sentir a energia dos fãs porque isso me preenche. 

Mas, por outro lado, durante a pandemia eu fiquei muito mais próxima deles digitalmente e acabo os conhecendo mais. Agora que estou em casa, tenho mais tempo pra isso. Aliás, eu só consigo ter esse contato porque estou em casa.



Enxerga algum aspecto positivo nesse período de isolamento social?



A gente passa mais tempo junto com a família. Eu amo minha mamãe, amo minhas irmãs e ano passado foi um dos anos em que eu mais viajei pra fazer shows. A gente tem se divertido bastante juntos.


Como vê o futuro da indústria da música?

Sou otimista sempre. Se você dá energia para algo, aquilo toma força e acontece, então eu sempre jogo coisas positivas para o universo. Mas é muito triste a situação que a gente vive. 

O problema é que não é só o cantor que está sem fazer shows. Tem o cara que monta o palco, que monta a luz. 

Toda essa gente está sem ganha pão. Sou muito otimista e penso que até o fim do ano já teremos essa vacina circulando e para todo mundo. Eu mentalizo muito isso.

Muita gente acha que da maneira como os shows acontecem vai demorar muito para normalizar ou até mudar completamente.

Não sinto isso no meu coração. Acho que tudo vai voltar ao normal quando tivermos vacina. Vai demorar um pouco pra voltar? Vai, mas acho que não tem como mudar. Como vai deixar de existir essa interação do fã com o palco, com o artista? É o jeito que eu mais gosto.




Alguns artistas já estão se apresentando em shows drive-in. Vai fazer isso?

Não. Eu acordo de manhã sabendo que ainda não tem vacina e é muito triste ver que governo também não faz quase nada pela população que mais precisa. Então, como eu vou subir num palco pra drive-in? Primeiramente, para isso a pessoa tem que ter carro. 

Quem tem carro no Brasil? Não tem como eu subir num palco sabendo que tem um monte de gente que não está nem podendo trabalhar. Essa não é a energia que quero pra mim.

Você tinha apresentações marcadas este ano em festivais internacionais grandes como o Coachella e o Primavera Sound. Como recebeu a notícia dos cancelamentos?

Ai, era uma das minhas maiores expectativas porque amo tocar em festivais, eu estava muito ansiosa. O que me deixou triste mesmo não foi o cancelamento dos festivais, mas esse vírus que surgiu do nada e mudou a nossa vida de cabeça pra baixo. 

Parece que a gente começou uma história de filme, e eu ficava me perguntando o tempo todo, meu Deus, será que mundo está acabando? Será que tudo isso é um surto coletivo e vamos acordar? Mas já recebi a notícia que estarei no Primavera Sound no ano que vem.




Ter carreira internacional é um sonho?

Eu costumo falar que o meu sonho era ser conhecida no meu bairro, ser conhecida na minha cidade. Hoje meu trabalho chegou em todo o Brasil e me possibilitou ser quem eu sou atualmente. Sou muito grata a tudo isso, aos meus fãs, às pessoas que me ajudam. 

A minha voz tem ecoado para outros países e eu fico muito feliz e muito orgulhosa, mas é algo que veio muito natural. Quando vou para fora me apresento em muitos lugares pequenos também. Eu amo isso porque estou podendo levar minha música, minha língua e minha cultura regional pra outros lugares.

Pensa em adaptar algo no seu estilo para alcançar mais visibilidade no exterior?

No meu caso acho que não vai acontecer tão cedo. Quando eu faço música com uma pegada internacional, sempre coloco ela misturada com quem eu sou de verdade. O ano passado foi onde eu tive maior contato com essa galera que fala espanhol, que fala inglês. 

E eu já estava trabalhando em músicas para que os fãs pudessem cantar junto. A minha ideia de fazer músicas em espanhol e inglês era só para que eles pudessem cantar junto. Sou eu e acho que vou continuar sendo eu em qualquer lugar do mundo em que eu esteja.




Você foi escolhida como um dos rostos da Calvin Klein. Acha que agora as marcas estão realmente sendo mais inclusivas? Essa mudança veio de forma permanente?

É muito doido a gente falar disso só agora em 2020. O que é o padrão, o que é o bonito, o que é modelável? As pessoas tinham na cabeça que era o corpo magro, branco. Hoje em dia a gente vê uma diversidade de corpos na Calvin Klein. 

Mas não são todas as marcas que dão espaço, sabe? Quando eu fotografei a campanha em NY eu vi gente de todas as etnias, tamanhos e cores trabalhando no set. Não eram só os modelos.

Acha que isso acontece da mesma maneira no Brasil?

Não. Às vezes a marca levanta uma bandeira mas quem trabalha nessa marca? Majoritariamente pessoas brancas, heterossexuais, sabe? O que me deixa feliz em fazer essas campanhas é que nós podemos mostrar para as pessoas que é possível. Gays de cidade pequena me veem ali. Pra mim é como se eu estivesse dizendo: ‘Gata, você pode sonhar e ser do jeito que você é, e a gente tá aqui pra mostrar isso’ É legal que essa discussão esteja acontecendo no Brasil, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

Aqui os protestos contra o racismo, que aconteceram no mundo todo, foram menores. Ainda engatinhamos na luta contra preconceitos?

O que eu vi que aconteceu muito lá fora é que as pessoas realmente estavam abraçando a causa e ainda abraçam até hoje. A gente ainda vê matérias sobre pessoas se mobilizando lá fora. Aqui no Brasil as coisas são muito efêmeras, as pessoas morrem em um dia, fala-se no outro, e depois, não. As grandes mídias também não reportam. Eu não vi, você viu reportar? Falta toda uma junção de aliança e da gente dar as mãos mesmo contra o racismo, contra a transfobia. É muito difícil acabar com tudo isso sem muita luta.




Você é um dos grandes alvos de fake news de grupos de direita na internet. Na sua opinião, por que incomoda tanto esse grupo?

Quando a pessoa é muito conservadora e ela acredita nessa postura, meu amor, ela não pode ver ninguém com autenticidade, conseguindo fazer sucesso, sendo diferente, levantando questionamentos na sociedade… A pessoa simplesmente não quer ver, não aceita. É a mesma coisa que falar pra mim que não existe transfobia no Brasil, que é o País que mais mata as pessoas da comunidade. Para eles isso não existe porque não é da vivência deles, e quando eles veem uma pessoa que levanta esse tipo de questionamento, atacam porque não se alinha com o que eles querem, é óbvio.

Seu sucesso incomoda?

Sim! Para muita gente pessoas assim como eu, gays, não podem fazer sucesso. Drag queens fazendo sucesso? Nunca. Jamais. Entendeu? Eu acho que isso é o ponto que mais incomoda a eles. Mas eu costumo falar que sou igual massa de pão, quanto mais batem, mais eu cresço. Então, podem continuar batendo.

O que acha da tão falada cultura do cancelamento? Tem medo de passar por isso?

A cultura do cancelamento é muito doida, né? Não tenho medo de ser cancelada porque eu nem penso nisso na verdade. Às vezes eu fico sabendo que estão cancelando fulano mas quase nunca entendo o porquê. Não costumo acompanhar. Cada um sabe o que faz de sua vida, sabe de sua trajetória. 


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Mas as pessoas também não são burras, elas sabem quando algo é fake ou quando a pessoa é pega naquele pulo ali mesmo. Ainda assim, sou contra essa coisa de linchamento. Não é legal. Principalmente porque acontece muito com mulheres, pelo o que eu vejo, rola muito machismo. A gente vê muitos homens fazendo ou falando as mesmas coisas supostamente erradas e por que ninguém os cancela?


Por Estadão  Conteúdo


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