Médica de Nova Iguaçu é a única mulher na base brasileira da Antártica - Baixada Viva Notícias

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Médica de Nova Iguaçu é a única mulher na base brasileira da Antártica

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Imagine um lugar com a natureza totalmente preservada, sem um só caso de Covid-19 e onde todos vivam em paz. Esse paraíso — embora com temperaturas abaixo de zero — existe, é brasileiro e tem apenas 16 habitantes, entre eles uma só mulher. 


Moradora do bairro Marco II, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a médica e capitã-tenente da Marinha do Brasil Letízia Aurílio Matos, de 40 anos, é a única representante do sexo feminino no time de militares na base brasileira Comandante Ferraz, no continente distante da Antártica. 


Destinado a pesquisas de fauna e flora do Programa Antártico Brasileiro, o local fica a mais de 4,5 mil quilômetros da Baixada. Uma plaquinha de madeira afixada em um totem, em frente à base, é a única lembrança do clima iguaçuano, que facilmente bate os 40 graus no verão.

Letízia chegou à base em 4 de novembro de 2019, após dois dias de viagem de avião e navio. E venceu a barreira do frio para se adaptar. Na Antártica, o verão vai de novembro a março, mas o calor passa longe. 

Neste período, a temperatura fica em média entre 3 graus positivos e 5 negativos. No inverno, de abril a outubro, vai de 8 a 15 graus abaixo de zero, congelando o mar. 

Com o ventos, a sensação térmica chega a menos 22 graus. Para suportar o frio fora da base, só com muita roupa.

Letízia, de Nova Iguaçu, é única mulher na base da Marinha Brasileira na Antártica


— Temos treinamento para saber que tipo de roupa e de equipamento de proteção usar, como prevenir ressecamento de mucosas. Mas vale a pena! Contribui muito para formação militar e pessoal. 

Quem vai fazer atividade fora (da base) tem de usar a segunda pele (roupa térmica para manter o corpo aquecido). 

Tem também de vestir uma roupa mais quente, do Programa Antártico, além dos macacões impermeáveis, botas bem grossas e duas luvas: uma delas impermeável. Também usamos balaclava, cobrindo todo o rosto, uma touca, protetor auricular por conta do vento, óculos polarizado, protetor labial e protetor solar — conta.


O frio é intenso, mas o banho de cada dia é garantido sem precisar bater queixo. É que a base de 4.500 m², reinaugurada em janeiro (a anterior foi destruída num incêndio em 2012), conta com água quente, além de academia e 64 leitos, divididos em 32 camarotes com camas e banheiros.

Base da Marinha do Brasil na Antártica

— Cada um tem seu camarote com cama e banheiro. Temos um sistema de aquecimento de água. Estamos em um local onde há dois lagos e temos água doce. Além disso, captamos água do mar e conseguimos transformar para utilização, além de água de reuso. Não temos dificuldades em fazer as tarefas de higiene pessoal — diz a iguaçuana.

A plaquinha no totem com a distância entre a base e Nova Iguaçu foi afixada por um militar conterrâneo. Morador de Comendador Soares, ele esteve na estação em março para fazer a manutenção de embarcações. Na bagagem, levou a plaquinha, que faz a oficial se sentir mais próxima da terra natal.

— Sinto muita falta de Nova Iguaçu, de poder andar no meu bairro. A gente conhece o dono da padaria, conhece todo mundo que mora na rua desde pequeninho. Isso é uma saudade. 

Eu gosto muito de Nova Iguaçu, é uma cidade com sensação de bairro. Não posso esquecer do meu maior tesouro, o meu sobrinho Gabriel Aurílio, que fez 10 anos no dia 28 de setembro. Ele é filho da minha irmã gêmea, Rosa Aurílio, médica do Exército — lembra Letízia.



A médica Letízia na base da Marinha na Antártica


Comida é que não falta, chega até de paraquedas

É praticamente impossível navegar, no inverno, nas águas congeladas do continente antártico. Assim, o abastecimento dos gêneros alimentícios para os militares é feito no verão. 

O planejamento é para que não falte nada por um ano e seis meses, período maior do que o previsto para a permanência de cada equipe, que é em torno de 13 meses. Por isso, não falta arroz, feijão, farinha, carne, frango ou peixe. 


O único contratempo são alimentos perecíveis, como frutas da época e legumes, que não podem ser entregues em grandes quantidades com muita antecedência.

Base da Marinha Brasileira na Antártica

Mesmo assim, durante o inverno, voos feitos pelos aviões Hércules C-130, da FAB, costumam abastecer a dispensa, usando paraquedas para entregar itens indispensáveis para a boa alimentação.

— O cardápio é supervariado, graças a Deus! No Natal teve até peru e chester. No verão, vem de navio. No inverno, tem voo de apoio, só não pode trazer muita coisa perecível para não estragar. 

E se não houver condições de voo, a gente fica sem frutas e legumes. Não vejo a hora de comer uma tangerina! Mas ontem chegou um voo com pêssego, que adoro, maçã, banana, melão, melancia, laranja, limão. Foi bem legal! — diz Letízia.

O gelo também não impede que os militares façam churrasco. Nesta sexta-feira da semana passada, o prato principal foi costela bovina. A sobremesa? Sorvete. É que a climatização garante agradáveis 19 graus.

Além de executarem o próprio serviço — o de Letízia é na seção de saúde e na agência postal —, os 16 militares se revezam em tarefas de limpeza e de auxílio ao cozinheiro, tarefa que chamam de rancho.

Programa Antártico, um sonho que foi alimentado por anos

A médica Letízia na Antártica

Filha do casal de professores Antonio Jorge Matos e Geovana Aurílio, Letízia entrou para as Forças Armadas por influência do pai. Ingressou no Corpo de Saúde da Marinha do Brasil em 2015 após passar na seleção. Um ano depois, conheceu o Programa Antártico e se apaixonou pelo projeto. 


Passou por missões humanitárias, uma delas atendendo refugiados da Venezuela na Região Norte do país, e especializou-se em pediatria no Hospital Naval Marcílio Dias, no Lins de Vasconcelos. Embora o sonho de passar em concurso público fosse do pai, o de ir à Antártica era de Letízia que, já na Marinha, teve de esperar até 2019.

— Em 2016, eu estava em outra missão, fui para o Acre e não pude fazer o processo seletivo para o Programa Antártico. Ao voltar, fui para a Escola de Guerra Naval, onde servi por um ano. Depois, fiz minha especialização no Hospital Naval Marcílio Dias, e fiquei dois anos. Em 2019, abriu de novo o Programa Antártico e consegui me inscrever. Aguardei quatro anos para conseguir!

Uma de suas tarefas na base é ajudar a prevenir doenças. Por enquanto, não há caso de Covid-19 no continente. Para mantê-lo livre do vírus, houve reforço nas medidas de higiene e a visitação de pesquisadores foi suspensa, assim como as pesquisas de 2020.


Fonte: Jornal Extra

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