Jovem se recusa a participar da ceia de Natal com família durante pandemia: 'vejo como a ceia da morte' - Baixada Viva Notícias

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Jovem se recusa a participar da ceia de Natal com família durante pandemia: 'vejo como a ceia da morte'

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Arquivo pessoal/BBC News



"Hoje, com a pandemia, a maior prova de amor que a gente pode dar é o distanciamento", diz Zlu Piza, um rapaz de 31 anos, estudante de administração e vendedor de doces na orla de João Pessoa.


A família dele não concorda. Nesta noite de véspera de Natal, mais de 30 parentes seus devem se encontrar na casa de uma tia para a ceia natalina, diz ele.

Piza tem tentado seguir à risca as orientações de especialistas para não contrair coronavírus nem disseminá-lo para outras pessoas. 


Fica em casa a maior parte do tempo, usa máscara sempre que sai para a rua, mantém distanciamento físico, higieniza as mãos, não se encontra com outras pessoas.

"Fiquei enclausurado durante oito meses, praticamente. Não encontrei ninguém. Abracei minha mãe uma vez só, em outubro", diz ele.

A pandemia, que jamais foi totalmente controlada no Brasil, tem tido um crescimento acentuado de casos desde novembro. 

Especialistas temem que as festas de fim de ano façam aumentar o número de casos consideravelmente. 

A Fiocruz emitiu uma nota técnica com um alerta: as festas de fim de ano podem provocar o colapso do sistema de saúde no Brasil.


De acordo com a instituição, o Brasil vive agora a sincronização das curvas epidêmicas nas capitais e interior do país. 

O país vive um "espalhamento do vírus em todo o território nacional pela maior mobilidade da população e circulação do vírus", diz a nota.


"Nos próximos meses, a busca por assistência especializada pode aumentar simultaneamente, nas regiões metropolitanas e no interior, provocando novo colapso do sistema de saúde."

Os encontros entre membros de uma família que vivem em mais de uma casa podem ser um cenário ideal para a proliferação do coronavírus, que já matou quase 190 mil pessoas no Brasil — a maioria idosos.

A única forma de garantir que não haverá contaminação é abrir mão da comemoração presencial, passando o Natal e Ano Novo só com pessoas da mesma casa. 

Segundo a Fiocruz, que também lançou cartilha com cuidados para as confraternizações, "a forma mais segura de passar o Natal e o Réveillon é ficar em casa e celebrar apenas com as pessoas que moram com você".

É possível, também, mitigar os riscos, embora seja impossível eliminá-los completamente.

Apesar dos riscos, muitas famílias, como a de Piza, devem se reunir no Natal.

"Minha tia e meu pai me convidaram. Eu disse que seria um risco muito grande", diz ele.


"Estou vendo essa ceia como uma ceia da morte. A possibilidade de, após festividades de Natal e Ano Novo aglomerados, o número de contaminados subir gigantemente é real. O pior dessa situação toda não é só o aumento do risco, é a questão de ser premeditado. Não existe hoje a possibilidade de fazer uma festa e dizer que tem protocolos, porque o protocolo é não ter festa. Estão brincando de roleta russa."


Piza conta ter perdido dois amigos neste ano para a covid-19. Um deles era um rapaz de 41 anos, Bruno Leonardo, "pai exemplar", que deixou a esposa, grávida do terceiro filho, e que havia perdido a mãe para a covid-19 em julho. A outra era uma amiga da família, Marinalva Santana, "pessoa contagiante em sorriso, amiga, cuidadora e gentil com todos sem distinção", morta aos 55 anos nesta terça (22/12).

Além disso, diz Piza, ele perdeu amizades porque não consegue mais "ver nas redes sociais as pessoas indo para festas tendo pessoas idosas em casa".

Enquanto segue as regras para não se contaminar e não contaminar os outros, conta o estudante, ele vê pais e irmãos ignorarem as regras, recebendo pessoas em casa ou indo para a igreja. Já flagrou em uma "live" da igreja, por exemplo, a irmã ali sem máscara. Recebe fotos da mãe ao lado de outras pessoas e sem máscara.

"Sinto muita angústia, porque além dos lutos que já vivi, sinto a possibilidade de perder mais pessoas pela covid por causa das confraternizações de agora", afirma Piza.

A reunião na casa da tia na véspera de Natal deve ter membros da família de oito casas diferentes, estima ele. "Dessas 30 pessoas, há parentes casados com mulheres e homens de outras famílias que também vão visitar suas famílias."

Ele diz tentar argumentar com a família, mas não tem jeito. No começo, enfrentava mais. Hoje, diz estar mais calmo.

"Entendi que é uma decisão da pessoa, que não dá para fazer uma intervenção. Então eu continuo a reafirmar que tem que usar máscara, que não pode aglomerar, que tem que ter distanciamento social, mas falando com a consciência de que eles não dão a mesma relevância que eu dou."


Para ele, "existem pessoas que são ignorantes por completo e pessoas que decidem ignorar". "O Brasil está com esse espírito. É um espírito suicida, homicida. Eu sinto tanto por isso, eu sinto muito. É devastador."

"Quando você vai para festas e tem idosos em casa, você está compartilhando o risco de você e outras pessoas adoecerem e morrerem", afirma Piza.

"É pesado, mas é algo próximo de um assassinato de alguém. E com intenção, porque você sabe do risco. É como entrar num carro alcoolizado."



Por R7

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