Após emocionar o público no teatro, livro do espetáculo circula por bibliotecas públicas da Baixada e terá distribuição gratuita em 13 cidades da região
“Estamos falando de uma história marcada pela tentativa de eliminar nomes, memórias e origens. Publicar esse livro é garantir permanência”, destaca Hilda Maretta, atriz e idealizadora do espetáculo “Orúkọ”, que reflete sobre a ancestralidade diante do apagamento histórico das narrativas negras no Brasil. Agora, a obra encenada chega ao público em formato impresso. O lançamento do livro da dramaturgia será realizado em diferentes bibliotecas públicas do estado do Rio de Janeiro. Após a estreia no Centro do Rio, a circulação segue para a Baixada Fluminense: em Duque de Caxias, nesta sexta-feira (17 de abril), das 15h às 17h, na Biblioteca Municipal Governador Leonel de Moura Brizola; e em Nova Iguaçu, no dia 22 de maio (sexta-feira), também das 15h às 17h, na Biblioteca Municipal Cial Brito. O exemplar será vendido por R$ 35, e a ação também inclui a distribuição gratuita em espaços de leitura e centros culturais das 13 cidades da Baixada Fluminense.
A obra traz a problemática em torno dos nomes de pessoas negras no Brasil, já que, em 1890, Ruy Barbosa de Oliveira, então ministro da Fazenda, mandou queimar todos os documentos ligados ao período da escravidão. A destruição desses arquivos impediu não apenas a responsabilização legal pelos crimes cometidos, como também apagou os registros que poderiam conectar os ex-escravizados às suas origens, famílias e nomes. “Tomar consciência de quem somos nos faz questionar as imposições feitas, o silenciamento sofrido, o apagamento de nossos nomes e de nossa cultura”, ressalta Hilda.
Neta de congadeiros, Hilda tem o mesmo nome da avó. Foi ao perceber o peso simbólico desse nome herdado que ela passou a investigar o passado de sua família. “Orúkọ nasce da necessidade de me reencontrar, me refazer, me reconectar com meus ancestrais. A busca por compreender por que recebi o nome da minha avó, o medo de não ser alguém, e sim uma continuidade de outra vida. Foi a partir dessas questões que o espetáculo surgiu”, explica a idealizadora.
O processo de adaptação da dramaturgia da cena para a impressão foi pensado como uma tradução entre linguagens. Enquanto o teatro se constrói na presença e no encontro coletivo, o livro se apresenta como uma experiência fixa, individual e silenciosa. “A cena tem elementos que não cabem completamente na página, como o cheiro do café ou a presença do público. O desafio foi sugerir essas atmosferas no texto, mantendo a essência da obra. O livro não busca reproduzir a cena, mas garantir que aquilo que o espetáculo convoca continue existindo para além do palco”, explica.
Para o dramaturgo Mateus Amorim, o processo de transformar a obra cênica em publicação exigiu um exercício de tradução entre linguagens, buscando transpor para a escrita as nuances e presenças construídas em cena. “Escrever sempre é desafiador. Mesmo sendo a dramaturgia do espetáculo em livro, o que fizemos foi traduzir as linguagens do teatro para o livro. Um dos maiores trabalhos foi encontrar as palavras certas para indicar o que a Hilda, muitas vezes, diz com um olhar, um gesto. Ainda assim, foi um processo prazeroso revisitar esse texto de forma aprofundada e reafirmar que acreditamos nas histórias que contamos. Seja em livro ou no teatro, ‘Orúkọ’ é um projeto que não só questiona os nomes no Brasil, mas celebra nossas identidades através daquilo que nos une: a palavra.”
